OGYGIA 1

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Mágoas , Dores e outros Dissabores

No primeiro aniversário do lançamento de Ogygia: Revista Literária, a equipa editorial — Paula de Sousa Lima, Vera Pires e Avelina da Silveira — agradece os contributos de tantas mulheres que transformaram um sonho modesto numa revista de qualidade reconhecida.

Todas nós, que temos mostrado a excelência do trabalho literário, de investigação e artístico de mulheres portuguesas e da diáspora açoriana, constituímos, a meu ver, um círculo que se expande a cada número publicado. E é assim com as mulheres. Vivemos e criamos, numa espiral convidativa e acolhedora a novas vozes e a vozes anteriores, ouvindo sempre aqueles ecos antiquíssimos das que vieram antes de nós e plantaram árvores para que, dos seus frutos, pudéssemos beber as estrelas.

Em Portugal, onde escrevo, apesar das nossas conquistas, que são o resultado de tantas lutas de tantas mulheres que nos precederam, vivemos com mágoas, dores e dissabores para além dos que são naturais ao processo de nascermos, darmos à luz e morrermos. Entre a primeira inalação e a última exalação, mesmo nas sociedades menos repressivas, pelo facto de sermos mulheres, somos sujeitas a mágoas de exclusão, dores de violência, dissabores de minimização da nossa competência. Em qualquer área a que dedicamos os nossos esforços, temos de ser excelentes para sermos comparáveis a homens medianos. É necessário gritarmos e tornarmo-nos intrusivas para sermos notadas.

 A violência contra as mulheres é a principal causa de morte entre elas em muitas partes do mundo e em Portugal, e, em especial nos Açores, é um flagelo social que se inicia na infância. A violência no namoro está normalizada e a dor infligida pelo namorado é sentida como prova de amor. As pubescentes são sexualizadas precocemente, tendo interiorizado o olhar masculino (the male gaze) como definição da sua identidade. Entretanto, a autonomia do nosso corpo não está garantida.

A Plataforma Portuguesa Para os Direitos das Mulheres afirma no seu website [1] que “A grande maioria dos crimes sexuais contra mulheres não são revelados e a violência sexual continua subestimada. A violência sexual é um tipo de violência particularmente tabu nas sociedades, ainda que comporte várias formas como a violação, o incesto, o abuso sexual de crianças, a violência em relações de intimidade, a exploração sexual, o assédio sexual, a perseguição, ..., etc.” Uma em cada quatro mulheres portuguesas foi ou é vítima de violência física ou sexual.

A violência contra as mulheres não acontece ao acaso, não é um fenómeno recente nem fragmentado. É, em meu entender, uma guerra milenar em que o patriarcado, constituído por homens que assumem o poder sobre as mulheres, as vê como recursos e mão de obra.

Todos os sistemas de opressão sustentam-se com o auxílio de oprimidos, dizia Simone de Beauvoir. Neste caso, o patriarcado é apoiado e reproduzido por mulheres que incorporaram os princípios ideológicos desse mesmo poder por uma variedade de razões, incluindo razões românticas e a partilha de poder. Porém, vai muito além disso: as mulheres são doutrinadas desde o berço no entendimento, no sangue menstrual, na barriga que querem fértil e nos próprios ossos até à morte de que o mundo está organizado por dois géneros, no qual as mulheres são subordinadas aos homens.,

Por que razão os homens cometem atos de violência contra as mulheres? Porque podem. Porque têm um sistema elaborado e totalitário de guerra, violência e opressão, em que os agressores não são mais do que instrumentos da imensidão e da extensão do sistema que os apoia e lhes permite agir.

Em Portugal, e em especial nos Açores, temos tão poucos agentes de polícia que, mesmo que haja um telefonema de emergência, a vítima poderá estar morta antes que o auxílio chegue. A justiça é lenta e branda. As vítimas raramente testemunham em tribunal os crimes de que são vítimas. As famílias não as apoiam. As redes sociais são misóginas. Os poderosos escapam porque têm bons advogados, os pobres nem tanto. Mas mesmo quem é pobre pode ter alguém em quem mandar, em quem bater e que, mesmo a chorar, trata das lides domésticas e dos filhos e vai limpar umas casas para fazer mais algum dinheiro.

A guerra contra as mulheres faz-se com munição dos púlpitos religiosos que pregam a submissão das mulheres aos maridos como a dos fiéis à Igreja; faz-se com programas de reality TV, telenovelas e romances de cordel; faz-se com mensagens políticas da direita sobre o papel das mulheres como fadas do lar e do seu útero sagrado; faz-se permanentemente, inexoravelmente, até que as próprias meninas nunca vejam outra realidade senão a das bonecas cor-de-rosa e os papéis tradicionais de género.

Arte de Sofia de Medeiros

A hegemonia ideológica do patriarcado é de tal modo abrangente e totalitária que é lugar-comum: quem se insurge contra ela é maluca, malcriada, desagradável, insuportável e contranatura.

Importa também sublinhar que a experiência de opressão das mulheres sob o patriarcado, aliado ao capitalismo, não é uniforme. A experiência de opressão patriarcal de uma mulher heterossexual branca, de classe média, num subúrbio com dois carros à porta e rendimentos que lhe permitem férias anuais é vastamente diferente da de uma mulher racializada, lésbica, de pele escura, pobre, talvez portadora de uma incapacidade, mãe sozinha, que vive num bairro social, que tem de usar transportes públicos e vive sob o receio contínuo de ser atacada fisicamente por vizinhos ou estranhos à noite.

Tal como inúmeras pensadoras feministas o têm explicado, a interseccionalidade das opressões, das influências simultâneas de raça, classe, género, e sexualidade, é um conceito fundamental para se compreender que as opressões sobre as mulheres constituem uma teia pesada de machismo, racismo, homofobia, pobreza, discriminação e exclusão. A vida de uma mulher pobre, abusada pelo companheiro, é, muitas vezes, mais opressiva do que a de uma mulher de classe média. Por outro lado, essa mulher de classe média vive com frequência a sua dor em solidão, porque a vergonha e a necessidade de manter aparências a constrangem.     

É verdade que a vida tem muitas mágoas, por vezes amorosas, por vezes decorrentes da perda de entes queridos. A maior parte das mulheres sabe o que são dores menstruais, dores de parto e de amamentar. Os dissabores são tantos e, por vezes, tão irritantes que só com a maturidade aprendemos a lidar com a maioria deles. Quero eu dizer que já nos sobram e escorrem por cima da borda da nossa vida problemas suficientes, para não falar de doenças que a todas nos assolam ou, por vezes, nos afligem por demais. Ainda por cima, somos, aos olhos de tantos homens neste mundo, servas domésticas, sexuais, reprodutivas e objetos da raiva deles.

Ogygia: Revista Literária quer, por meio deste número, chamar a atenção para a ideia radical e revolucionária de que somos gente e, por inerência, portadoras de direitos humanos fundamentais. Assim, aqui estamos a exigir o que nos é devido pelo facto de sermos seres humanos e a sonhar um mundo em que essa exigência não seja necessária.

 

[1](https://plataformamulheres.org.pt/artigos/ temas/violencia-de-genero/violencia-sexual/)