Conto de Maria Jorgete Teixeira

O velho que inventava romances improváveis

Os sorrisos dançavam-lhe em pontas pelo corpo e, de vez em quando, pousavam-lhe nas mãos, e aí ficavam ao sol.

O velho professor de filosofia já não leccionava. Morava com o gato Mefistófeles, os livros e a sua escrita.

Numas águas furtadas que davam sobre o largo, inventava histórias com as gentes que passavam em baixo. Olhava-as, escolhia-as e fazia com que chegassem à sua janela; depois, adormecia-as e roubava-lhes as vidas, refazendo histórias de amor. Gostava especialmente de misturar pares impossíveis: velhos decrépitos e jovens ladinas, mulheres gordas e grandes com homens pinguins, senhoras elegantes e vagabundos.

Raramente saía; a mulher-a-dias tratava-lhe das compras essenciais, apenas havia uma saída que fazia com gosto: de vez em quando ia à livraria na outra rua, para fazer uma visita aos livros. Sentava-se num cadeirão ao fundo e entrava nas narrativas dos outros. A menina do balcão via-o muitas vezes levantar voo e sair com as letras atrás, sabe-se lá para onde… mas voltava sempre. Umas vezes de semblante triste, outras com um sorriso de lua em noites de verão.

O resto do tempo levava-o a navegar na Internet, e foi aí que a conheceu. Ela deslumbrou-se com a sua sabedoria, com os seus versos de fina filigrana e provocava-o com a sua frescura. Ele defendia-se como podia, mas sabia, no fundo, que não conseguiria resistir ao apelo.

Os dias passaram a não ter as horas todas. Sentava-se à janela, como de costume, mas as pessoas eram agora traços de lápis que pisavam a calçada em riscos sem sentido e deixou de lhes fantasiar amores. O coração sabia apenas “aquela” hora e nos minutos antes a angústia era pedra em briga com a sua esperança. Quando ela aparecia no monitor com a luzinha verde atrás, o coração dele perfumava-se e entrava na volúpia das palavras.

 Agredia-o a juventude dela; a foto do perfil mostrava-a numa pose ameninada, mas o decote beijava-lhe um colo generoso. Desarmava-o o seu linguarejar ligeiro e um pouco fútil, porém sentia-a frágil nas bravatas que contava. Quis encolher-se como gota de chuva indecisa, mas ela não pareceu importar-se com o seu cabelo prateado e a pele um pouco amarfanhada.

 O corpo dela passou a inquietar o seu sono, que cobiçava lascívias, abandonando um redondo de doçura na aspereza da sua pele solitária. As palavras eram lençóis de lava onde o corpo dele entontecia e nunca mais voou atrás das letras. 

 

 

Poesia de Lara Gularte

 

UMA MULHER COM UM SÓ SEIO, VESTIDA NUMA MORTALHA

 

Ela não percebe as forças das trevas

que se ocultam no seu corpo,

até à extirpação do seu seio direito.

 

Agora, corvos saem a jorrar dela,

com as mãos nas pontas das suas asas.

Contorcem-se no chão ao lado da sua cama.

 

A pele do seu peito arde.

Ela não é um pássaro,

nem sequer uma mulher.

 

Ela banha-se na escuridão,

cobre o seu corte vermelho

com lençóis.

 

Um ombro afunda-se no seu coração,

o seu pulso torna-se uma asa a bater,

um laço sustenta o seu braço direito.

 

Vê-a como Santa Ágata,

com uma pomba no ombro,

carregando o seu seio numa bandeja de prata.

 

Lara Gularte

Publicado pela primeira vez em The Bitter Oleander

 

Adília César:

A perfeição alucinatória de Fiama[1]

Imaginemos uma janela aberta por onde entra a brisa do fim da tarde, no limiar do crepúsculo. A casa recolhida em redor da figura de Fiama, debruçada sobre o parapeito descascado. A brisa é um corpo esguio capaz de movimentos sinuosos e remotos, mas indeléveis. Sentimos que tudo está concluído no limite do círculo vivo e ao mesmo tempo aberto ao êxtase da curva infinita do horizonte, a eternidade antiga que vem de outros séculos. Se a indagação sobre esse tempo clássico que não acaba dilacerando-nos e angustiando-nos, também é verdade que a cada passo nosso levado por cada poema seu, nos instiga a reconcilia com a modernidade. Tudo tem o seu lugar: a palavra, o tempo, a sensação, a viagem, o espanto. Agora, todas as coisas são irreversíveis, como a água que escorre da fonte, como o verso que brota do pensamento para o exterior. Quando o lugar da linguagem não é convocado, o idioma não nos pertence. Fiama vai mais longe e reclama: Porque o idioma / é fechado e insondável em cada criatura, / porque cada nação é o berço de uma língua / e os meus poemas noutra língua não são meus. / Quando viajamos no mundo não sabemos quem somos.[1]

A infância vivida na Quinta de Carcavelos está sempre presente na memória dos seus poemas. Fiama é agora uma mulher madura, culta, introspectiva, mas já foi uma menina. E o que mistura-se com o que viu, sabe que o mundo se transforma a cada segundo, que a flor parecendo aberta, murcha e fecha-se pouco a pouco; que a borboleta parecendo em voo, sucumbe no último instante do dia. Ela sabe que apenas a criação estética pode guardar o que vale a pena, ainda que esses fragmentos ocasionais instiguem um empreendimento árduo de reformulações mentais, outros caminhos menos concretos de sangue ou vísceras: o corpo inteiro das coisas vivas e inertes, podendo ser um lugar ameno, é uma escravidão à espera da morte.

Estamos a conversar há horas. Cheguei com o propósito de entrevistar Fiama, de a questionar sobre o seu processo de escrita, que muito admiro; ela deixa-me falar, pretende ouvir-me, compreender o que dela se espera. Há uma certa ternura na sua aura, tudo nela respira poesia e me seduz. De repente, levanta a mão e interrompe-me, parecendo enfadada:

- Pode repetir? Parece-me demasiado inflectida, essa descrição relativa à minha pessoa. Veja bem minha querida, a única entrevista está nos poemas…quer mesmo desvendar a minha alucinação?

Uma absoluta presença de espírito abre os olhos à visão do poema e a poetisa reivindica uma humildade que não lhe cabe no corpo frágil de mulher madura. A sua natureza humana funde-se com a natureza em redor, doméstica e orgânica, como tentativa de destacar a transitoriedade fugaz das “coisas” que observa, que percepciona, e com a qual se compromete para a desvendar. É visível a construção de imagens poéticas onde surge o realce da finitude, da morte. Sendo visível no decurso dos dias e das noites, a natureza não compensa a necessidade de respostas, não conclui as inquirições das paisagens miméticas e culturais: Fiama aprisiona uma lírica reflexiva que nos provoca, que nos inquieta, que nos verga, que nos separa do todo.

Escrevo como um animal, mas com menor perfeição alucinatória[2].

Logo, não há consolação nem conforto nos versos da obra Área Branca, esse cenário do falsamente bucólico, que apesar de tudo nos arrebata. O locus terribilis por oposição ao locus amoenus, sendo que o ameno é uma falsa sensação de refúgio contra o tempo e a mortalidade. Quem está vivo vê sempre a morte, vê sempre o branco da luz do fim. É para me salvar que questiono Fiama. As suas respostas conduzem-me à solidão metafórica.

 

Não sei imprimir as três linhas
convergentes do pé da gaivota, nem os pomos
leves da pata dos felinos. Só de uma forma rudimentar
escrevo, e estou a predestinar-me ao fim.

 

(Estaremos realmente a viver, ou apenas a morrer devagar?)

 

Depois de tantos séculos posso afirmar
que a escrita é uma escravidão dura.
Sei que é inútil e desumano mover as mãos
assim. Nem estou convicta de que seja digno
escrever desta maneira; é uma manufactura triste,
quando as mãos podiam apenas escavar
na terra ou no corpo. Podem ficar as palavras
somente na fita magnética como nas cabeças loiras.
Nada na infância nos deveria obrigar
a traçar as patas dos roedores repelentes
que são letras. O som da boca deve escrever-se
no écran, com a nova razão da nova máquina
da realidade. Na areia, porém, ou no mosaico molhado
terei de aperfeiçoar a minha pegada. Aproximar
dela a mão até alcançar a harmonia do trilho
do escaravelho. Uma fieira de montículos
e ranhuras até ao infinito que para ele é o mar.

 

(E se a poesia fosse apenas ecos do grito imperial da gaivota?)


Há quantos séculos os seres humanos se aprisionaram
no mito da caligrafia. Como tem sido penoso esse gesto,
há tanto tempo, e só eu o renego, porque sinto
a opressão com que alguém o tornou mais nobre
do que a minha fala ou a minha visão, únicas
propensões inatas. Prefiro aprender pormenorizadamente
a conservar uma impressão digital. Há um pensamento
abstrato e maquinal que decora a História com inteligência
mecânica, e por isso é supérfluo escrever. Só alguns
raros escribas, como os desenhadores de máquinas,
seriam necessários. E poderia descansar a cabeça
no regaço da lama.

 

(Pode a luz resistir à mais obscura sombra sobre o papel branco?)

 

Ensinaria à infância a gravar

no pó de talco a palma das mãos e a considerar as palavras

modulações da voz pura, sem a mancha embaciada

compacta que paira diante dos olhos sempre

que se fala. A mancha que se desloca no raio da visão

e desbota qualquer imagem como a chama de uma vela

com a fuligem constante a torná-la opaca.

 

Dou as mãos a Fiama. Ela está tão próxima, tão íntima, a mostrar-me generosamente todos os inícios da sua existência: ela é humana, profundamente humana; ela é o vento omnipresente; ela é o tempo cósmico de outros séculos; ela é a realidade poética que tanto almejo, mas não consigo alcançar.

Daqui em diante trato-a por tu.

Quero entender como o poema descreve a realidade ou se o poema é a tua realidade, a falência do eu criativo como uma doença incurável. Não ousarei inventar falsas questões: Fiama diz que a única entrevista está no poema introspectivo e quase alucinante, escrevendo os vinte e sete versos descomunais e abstractos para eu os declamar a seguir à sua criação, a fala em voz alta numa linha de escrita contínua e também, ela mesma, alucinatória. No entanto, esta é uma alucinação imaginada, recriada a partir dos poemas que leio continuamente, que escavo repetidamente, durante horas e horas, a partir do tempo vivido.

Também Fiama concretiza a sua busca intencional de liberdade, voltando-se para o passado com o propósito de encontrar o futuro da escrita, num estado de completo dilaceramento interior. Ela escreve fora do corpo, ela sofre. E o movimento das mãos não é gesto utilitário de cavar a terra nem tão-pouco coreográfico das batidas por dentro do peito e no latejar das têmporas: é uma prisão, a escravidão do trabalho poético. A melancolia instala-se no processo de busca da origem, na recuperação do tempo tradicional e pacífico da infância. Escrever é uma tortura, dentro e fora da tradição que conhece e da necessidade de alterar essa mesma tradição, ou seja, transformar o passado num futuro real e não apenas linear. Fiama está na sombra e a paisagem que vislumbra é caracterizada por fragmentos fragmentados: divagações diluídas, perdidas nas sombras.

A natureza que a cerca, ainda que visceral e alucinatória, é perfeita: o equilíbrio das três linhas convergentes do pé da gaivota, os pomos leves da pata dos felinos. São as letras apenas traços das patas dos roedores repelentes? Aperfeiçoar, o passo, o avanço, o movimento do corpo, até alcançar a harmonia do trilho do escaravelho. Uma fieira de montículos e ranhuras até ao infinito que para ele é o mar. 

 Fiama sabe que ao longo da História a escrita condicionou as ideias, sendo que os pergaminhos e os livros fixaram no papel o que alguns escribas entenderam registar. A escrita não fixou, portanto, a fala ou a visão verdadeiras e reais, comuns a toda a natureza: a pedra, a formiga, a árvore, a areia, o mar, todos falam e veem, sem necessidade de códigos escritos. Ela sente a opressão infligida as escribas, esses escravos mecânicos e supérfluos da linguagem. Fiama idolatra a infância, onde mora a paz dos nomes nos fios da memória. Fiama constrói a matriz da casa, do mar, da folha, do bicho. Fiama escreve, escreve sempre: recorda, percepciona, enreda, desvenda, sofre e reconcilia-se com mundo e as coisas. Acordamos, e é nessa escrita alucinante, alucinada, alucinatória, que encontramos a perfeição perfeita da linguagem poética.

Adília César

 

[1] In Cenas Vivas (2000), Relógio d’Água, p. 96

[2] In Obra Breve (1991), Editorial Teorema, p. 315: Área Branca, Rosas (1976-1979)

[1] Fiama Hasse Pais Brandão (Lisboa, 15 de agosto de 1938 – Lisboa, 20 de janeiro de 2006) foi uma poetisa, dramaturga, ficcionista, ensaísta e tradutora portuguesa, formada em Filologia Germânica na Universidade de Lisboa; exerceu actividade de investigação na área da literatura e da linguística.